Quinta Retrô: Véu e dupla consciência

  • 03/02/2022 às 15:13

Nesse mês completam 154 anos do nascimento de um sociólogo, escritor e ativista que lutou pelos direitos do povo negro e trata sobre a reorganização da sociedade após a escravidão. Conheça a história de W. E. B. Du Bois.

Nascido nos Estados Unidos, em 23 de fevereiro de 1868, Du Bois teve condições de estudar graças ao apoio de sua mãe e ao financiamento com as doações da comunidade. Ele concluiu sua graduação aos 20 anos na Universidade de Fisk. Du Bois continuou a estudar conquistando seu segundo diploma, desta vez em Harvard e posteriormente um Ph.D. também em Harvard.

Du Bois fez diversos estudos sociológicos, o primeiro com maior destaque foi “O negro na Filadélfia”, onde retratou as dificuldades da população negra com a exclusão e com as consequências da escravidão. “O escravo se tornou livre; ficou um breve momento ao sol; então retornou a escravidão” assim descreve o pós-abolição Du Bois, apontando para a falta de apoio aos negros com o final da escravidão.

Sua maior obra, “As Almas do Povo Negro” livro que mistura biografia, história e manifesto antirracista. O clássico trata de como é ser negro no século 20, esse serviu de inspiração para o surgimento de novos líderes na luta antirracista. Nomes como Martin Luther King Jr., Angela Davis, Toni Morrison e James Baldwin – a quem interesse, o livro recebeu uma edição brasileira em 2021.

Du Bois foi um dos fundadores da Associação Nacional para o Desenvolvimento das Pessoas Negras (NAACP), umas das primeiras organizações americanas voltadas em prol dos direitos civis dos negros. Ele também liderou o congresso Pan-Africano no século 20.

Talvez você ainda esteja tentando entender o título e chegou o momento de você entender. Em sua obra de maior relevância, Du Bois apresentou dois conceitos que buscavam compreender o racismo e a história dos Estados Unidos. O primeiro ele chamou de “véu”: algo que impede que sejamos vistos como realmente somos e que, ao mesmo tempo, nos impede de enxergar o mundo como ele realmente é. Essa foi a metáfora que ele utilizou para apontar como as relações sociais se constituíram nos Estados Unidos.

Os negros e os brancos vivem no mesmo mundo e em mundos diferentes, nas palavras de Du Bois: “Foi quando me veio a percepção quase imediata de que eu era diferente dos demais; ou semelhante, talvez, em termos de coração e de força vital e de aspirações, mas apartado do mundo deles por um enorme véu”. Apesar de serem criados no mesmo lugar e em condições semelhantes – por mais utópico que essa situação seja – as pessoas negras teriam vivências completamente distintas das pessoas brancas.

O segundo conceito é o da dupla consciência. Antes de entender o que o conceito trata é fundamental entender a explicação de Du Bois do que é ser negro: “uma sensação peculiar, essa consciência dual, essa experiência de sempre enxergar a si mesmo pelos olhos dos outros, de medir a própria alma pela régua de um mundo que se diverte ao encará-lo com desprezo e pena. O indivíduo sente sua dualidade — é um norte-americano e um negro; duas almas, dois pensamentos, duas lutas inconciliáveis; dois ideais em disputa em um corpo escuro, que dispõe apenas de sua força obstinada para não se partir ao meio.”

Em tempos de segregação, ser negro e um cidadão norte-americano é incabível, praticamente como dois antônimos. Nessa dualidade existe a luta externa e a luta interna, mas Du Bois a apresenta como algo que faz parte da história do negro norte-americano. Du Bois conta essa história como “desejo de tomar consciência de si mesmo como homem, de fundir esse duplo eu em um único indivíduo, melhor e mais verdadeiro”

W. E. B. Du Bois viveu seus últimos dias na Gana, trabalhando na “Encyclopedia Africana”, ele faleceu aos 95 anos. Du Bois foi um dos responsáveis por abrir uma porta para que diversos e importantes nomes passassem, seus feitos transcendem sua existência.

Compartilhe com alguém

Código de barras copiado