Entrevista: Análise do cenário nacional de exportação e importação após as manifestações

Uniftec Entrevista: Cenário

Coordenadora do curso de Comércio Exterior do Centro Universitário Uniftec, prof. Mestre Fernanda Pimentel, explica como fica o cenário atual de exportações e importações do país, diante de longo período de paralisações na logística de transportes terrestres. Confira:

Como ficam as exportações do Brasil e também a produção industrial da região, diante de uma paralisação nacional como esta? Há cargas contratadas que possivelmente não embarcarão e não serão entregues ao exterior?

O cenário atual obviamente traz reflexos para as operações de comércio exterior e isso ocorre por diferentes aspectos. Primeiro, pela suspensão das atividades em portos, uma vez que não há caminhões para transportar. Segundo, pois sequer conseguimos produzir em nossas empresas, afinal não chegam insumos. Reflexo disso são as suspensões de atividade de grandes empresas da região (divulgadas na mídia) e também de pequenas empresas, valendo exemplificar algumas do ramo de Plásticos que aderiram ainda na sexta-feira à paralisação.

Como nosso transporte interno está concentrado no modal rodoviário, muitos caminhões nas estradas ou nos pátios estão com cargas de exportações. Como resultado, negócios amargados, multas podem ser aplicadas às empresas brasileiras que atrasarão as entregas e a própria credibilidade do país diante de seus parceiros acaba afetada, já que a greve é uma expressão de falha (do governo, dos agentes, da sociedade).

Até a 3ª semana de maio, nossa balança comercial vinha apresentando superávit. Ou seja, o Brasil estava exportando mais do que importando, movimento que é favorável para a economia. Além disso, as exportações em maio de 2018 (antes de iniciar a greve) apresentavam números mais expressivos que os resultados do mesmo período do ano anterior, já que segundo o MDIC teve aumento de 21,4% nas operações em maior de 2018 se comparado com maio de 2017.

Estes números apontam que estávamos timidamente (mas positivamente) reagindo e, agora com estes outo dias sem movimentações, certamente custará mais empenho, recursos e tempo para retomar os números.

E as importações, também ficam prejudicadas, de que forma?

As importações são encaradas pelo governo como menos importantes e explico a razão. Apesar de sermos dependentes de produtos e serviços que importamos a roda da economia gira mais quando consumimos ou comercializamos o que é produzido nacionalmente.

Ainda assim, é inegável que precisamos importar e, apenas de estarmos importando menos do que exportando, (como expliquei acima) as importações também sofrem atrasos e limitações, já que elas se valem do mesmo modo de transporte para a circulação interna. Ou seja, mesmo aquelas mercadorias que chegam pela via marítima ou aérea em nosso país precisam circular pelas rodovias para chegarem aos seus destinatários finais e é ai que tudo para novamente.

Em média, após uma manifestação como a atual, quanto tempo leva para os portos recuperarem sua logística, seu fluxo total, e o reabastecimento geral das cidades?

É impossível agora prever prazos ou métodos para retomada das atividades, seja na Capital do nosso estado ou no interior. Agora é evidente que a paralisação nos acena para necessidades! Primeiro demonstra a fragilidade da própria economia local, afinal muitos comércios, por exemplo, trabalham com pouco estoque, sem planejamento ou controle de demanda e isso agravou a situação de algumas regiões.

Costumo responder quando me perguntam o que é a logística que "é a ferramenta que permite a movimentação inteligente" e é justamente pensando nesta característica que entendo que hoje vivemos uma situação em que fica visível a necessidade de repensar sua aplicação em nossa sociedade.

Afinal se por um lado, a paralisação acena também para a fragilidade do modal que é o mais popular em nosso país, por outro, ela chama todos para refletir sobre a busca por novos caminhos.

O transporte terrestre representa quase a totalidade do transporte de cargas no país, quais as alternativas viáveis de transporte que poderiam ser exploradas no Brasil para evitar a dependência terrestre que temos hoje? Quais investimentos públicos necessários para isso?

Embora nosso país siga insistente na adoção do transporte terrestre como modal mais utilizado, a greve e os reflexos dela demonstram para os brasileiros o que tantos países já descobriram: não seremos competitivos enquanto seguirmos com a modalidade mais cara!

É louvável a posição dos caminhoneiros, que hoje amargam um mercado de trabalho competitivo, com concorrência desleal e muitas vezes com excessiva oneração. Ao mesmo tempo que eles precisam saber dirigir máquinas cada vez pais tecnológicas, seguem sendo obrigados a fazer o máximo de quilômetros em menos tempo... e tudo isso merece respeito.

Mas, não há como pretender que nosso país não acabe em outros momentos sofrendo as mesmas limitações sem pensar em diversificar os modais e adotar o que for o adequado para cada tipo de carga em determinada região.

Para finalizar e para convidar todos a uma reflexão, vale observar o exemplo do Aeroporto de Guarulhos. Você que está lendo ouviu falar que lá faltou combustível? Tenho certeza que não... E sabe qual a razão? Lá o combustível chega por dutos... O que é menos poluente, mais autônomo e modal que garante o abastecimento independente de tempo, de greve ou de fatores alheios.

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Entrevista com Professora Mestre Fernanda Pimentel da Silva

*Formada em Direito, Mestre em Integração Latino-americana, com ênfase em Direito da Integração Econômica.

Coordenadora do curso de Comércio Exterior, é professora no Grupo Uniftec nas disciplinas de Direito Empresarial, Direito Organizacional e Legislação Aduaneira, para graduação e pós-graduação.

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