Fonte: Gazeta Mercantil por João Paulo Freitas
Há anos o termo empreendedorismo caiu nas graças do mundo corporativo. Não se trata de mero modismo. Estabilidade econômica e abertura do mercado exigem profissionais dispostos a inovar e a antecipar tendências. Isso vale, obviamente, também para o executivo, não apenas para o empresário em sentido estrito, ou seja, aquela pessoa que possui sua própria empresa. É o que pensa Manuel Bermejo, especialista em empresas familiares, franquias e empreendedorismo, além de diretor dos cursos para executivos de alto nível da espanhola IE Business School, uma das escolas de negócios mais conceituadas do mundo.
“A verdade é que há cada vez mais interessados em desenvolver uma gestão empreendedora. Nos nossos cursos de alta gestão incluímos programas de empreendedorismo corporativo precisamente porque cremos que o mais relevante para quem está na cúpula de uma organização é empreender e criar coisas novas”, afirma. Para ele, as mudanças ocorrem com muita velocidade no atual ambiente de negócios. Isso faz com que o tempo disponível para amadurecer os produtos seja cada vez mais curto. “Nenhuma companhia permanece na liderança vendendo um mesmo item ou solução por muito tempo. É necessário inovar de modo permanente”, sugere.
Ou seja, o mercado está de olho em profissionais capazes de fazer com que a “cultura do empreendedorismo” permeie as empresas. “As companhias estão buscando que seus diretores tenham essa competência, essa postura. Elas nos pedem cursos sobre o tema. É necessário desenvolver aquilo que a literatura anglo-saxônica chama de intraempreendedorismo”, ressalta. Apesar de grande, o sentido da palavra não é difícil de apreender. Um intraempreendedor é aquele gestor que busca soluções eficientes e inovadoras para qualquer tipo de problema, além de ser, claro, pró-ativo. Dizendo de outro modo: esse tipo de executivo deve aplicar aquilo que se conhece como empreendedorismo em prol da empresa em que trabalha, comportando-se, sempre que possível, com ousadia e inventividade, como se fosse o próprio dono do negócio.
Bermejo fala com conhecimento de causa. Quando foi diretor de MBAs do IE, em 1994, ele instituiu a criação de um curso sobre empreendedorismo obrigatório. Com isso, os participantes passaram a ter contato com o tema desde o primeiro dia de aula. “Eu queria que todos os alunos do MBA fossem empreendedores ao menos uma vez na vida”, afirma, criticando que é comum que muitos se digam empreendedores sem, contudo, terem ações concretas nessa direção. Para o especialista, empreendedores são pessoas que transformam idéias em empreendimento real, isto é, em uma empresa. “Isso não é possível sem muito esforço, perseverança, inteligência, claro, paixão, que é algo fundamental e, contudo, pouco comentado”, detalha.
Já o executivo empreendedor é, para Bermejo, aquele que não “não se conforma que as coisas sejam sempre iguais”. Trata-se daquele profissional que questiona, com interesse e sugestões, desde os produtos até os processos da empresa. “Sinceramente, o gestor empreendedor está atento tanto às pequenas quanto às grandes questões. Ele tem um espírito de melhorias contínuas.”
Segundo Bermejo, quem quer que faça hoje um MBA no IE pode se especializar em empreendedorismo. E, pelo visto, a disciplina tem gerado resultados surpreendentes, para dizer o mínimo. De acordo com o especialista, aproximadamente 25% dos ex-alunos são atualmente donos de sua empresa própria.
Claro que ser um gestor empreendedor não basta. Como foi dito, é necessário fazer com que toda a empresa assuma postura similar. Este é um dos grandes desafios dos executivos. Para Bermejo, uma das chaves para alinhar os colaboradores com a estratégia da companhia é uma prática de remuneração adequada. “É um absurdo que os executivos do Lehman Brothers tenham cobrado seus bônus e um mês depois a companhia tenha quebrado. Não havia, no caso, alinhamento entre a estratégia e objetivos”, exemplifica, ao reforçar que as metas para o pagamento de remuneração variável devem estar diretamente relacionadas os objetivos corporativos.
Visão global
Para Bermejo, a atual crise representa um desafio e tanto para os gestores. Para superar os dilemas do momento, ele recomenda que os profissionais tenham, em primeiro lugar, uma visão global dos negócios. “O mundo é muito grande. A crise não está atingindo todas as regiões do globo do mesmo modo. O Brasil e a China, por exemplo, vão continuar crescendo”, prevê.
Outra sugestão de Bermejo para lidar com as turbulência é que o executivo saiba identificar o que é “músculo” e o que é “gordura” em sua companhia. “No cenário atual, desenvolvimento comercial e tudo aquilo que está relacionado com talentos é muito importante. Mas há áreas que não são fundamentais”, observa, completando que é necessário se ater a uma visão de longo prazo.
Segundo o especialista, a crise se dá em três aspectos. Em primeiro lugar, trata-se de um problema financeiro, ocasionado pela criação de “ativos tóxicos”, isto é, linha de crédito para pessoas que não teriam recursos suficientes para pagá-los. “Isso provoca desconfiança do sistema e, conseqüentemente, falta de liquidez.” Essa situação desencadeia o segundo momento da crise, que é o desaceleração econômica, já que a redução do crédito prejudica tanto as empresas quanto o mercado consumidor.
O mais importante, porém, é que a situação diz respeito a um terceiro elemento: “Para mim, trata-se de uma crise de valores.” Bermejo é da opinião que o dinheiro ganhou uma importância demasiada na vida de todos. “É verdade que muitos dos que trabalhavam em banco de investimento queriam ganhar o bônus no final de ano e, por isso, criam coisas como o subprime. Mas nós também somos ambiciosos e queremos trocar a cada dia de carro”, afirma. “Valores como honestidade, transparência e compromisso com o alinhamento estratégico são muito importantes para os gestores neste tempo de turbulência”, conclui.
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